O futuro ancestral como projeto estético
A filosofia de Ailton Krenak e a vanguarda da música brasileira
“Empresário sendo comido pela onça / No Ritmo da Terra” - por Poty Galaco
A música popular brasileira está enraizada na espiritualidade afro-indígena. As cantigas religiosas dos terreiros de umbanda e candomblé forneceram o esqueleto rítmico para a construção dos gêneros que formam o folclore nacional, como o samba, o choro, o forró, o axé, ou o carimbó, manifestações que serviram de base para serem associadas mais tarde a uma série de novas influências.
Primeiramente articulada através do Manifesto Antropofágico, a ideia de Brasilidade que foi pautada no século XX encontrou no espírito sincrético a síntese de sua identidade artística. A partir daí, como forma de lidar com a invasão cultural e tecnológica da Europa e Estados Unidos, as influências estrangeiras passaram a ser devoradas e fundidas aos gêneros que compunham nosso folclore.
O que a Antropofagia não pode antecipar foi a facilidade que o grande capital teria de capturar as vanguardas e transformá-las em produtos. O projeto sincrético encontrou seus limites de atuação política quando foi confrontado pela disparidade do poder econômico do império americano, que passaria a instrumentalizar sua cultura como uma máquina de guerra ideológica a partir dos anos 40, através da imposição de meios materiais de produção, como guitarras elétricas e sintetizadores, e reprodução, como as rádios, a TV, CDs e os streamings, que trataram de reconfigurar nossa sociedade como um mercado consumidor.
Esse processo buscava subjugar todas as esferas da vida aos interesses do capital e apagar no caminho as manifestações que fugiam da lógica de mercado. O colonialismo cultural se apropriou do espírito sincrético para embranquecer as manifestações afro-indígenas e dissolver a cultura popular nas influências ocidentais, aproximando-a dos estilos predominantes no coração do império. Dessa forma, ela poderia ser convertida num produto mais palatável que promovesse o individualismo e demais valores alienantes que são essenciais para a dominação psíquica do neoliberalismo.
No entanto, esses avanços da indústria cultural não foram tão bem-sucedidos na música quanto em outras áreas, como no cinema, já que a cultura popular brasileira continua apontando caminhos para resistir aos avanços do capital. De forma paralela, dispositivos como terreiros, rodas de capoeira e comunidades quilombolas se provaram formas eficazes de proteger conhecimentos pré-industriais alheios às demandas mercadológicas.
Existiu um momento em que, para muitos povos, música e religião significavam a mesma coisa. A partir do início da violência colonial, foram desenvolvidas tecnologias que transformaram a música ritual num instrumento de preservação de seus conhecimentos e formas de organização que resistiam à desumanização e ao apagamento das subjetividades trazidos pela escravidão e pelo genocídio. Afinal, os orixás são forças da natureza que nos permitem viver em comunidade, cantar, dançar e experimentar a vida em sincronia com a Terra.
Com as mudanças climáticas e a nova ascensão do fascismo expondo a impossibilidade da lógica de crescimento infinito, cada vez mais se faz necessário um projeto cultural que seja capaz de realinhar nossas visões de mundo, para que elas se emancipem da ideologia do progresso que protagonizou os avanços do capitalismo pelo mundo e a destruição do planeta. Em sua obra, Ailton Krenak argumenta que a única solução para essas previsões apocalípticas está no resgate das cosmovisões e dispositivos desenvolvidos pelos povos que mantiveram uma conexão com o planeta para resistir aos avanços do capital. Em outras palavras, “se há um futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral.”
Precisamos abrir mão do antropocentrismo que silencia as outras presenças do mundo, nos realinhar com o planeta e entender que somos muito parecidos com os outros animais e seres vivos, retomando formas de organização que são capazes de descentralizar o sujeito e recolocá-lo em comunhão com seu ambiente.
Para que a prática sincrética seja capaz de preservar conhecimentos ancestrais e impedir que eles sejam apagados pela pressão econômica do poder imperial ao longo do tempo, é preciso entender que as relações interculturais não são simétricas, que o choque cultural é conflito econômico, e que existe um interesse por parte do grande capital de alienar e subjugar aqueles com quem se confronta.
A nossa herança antropofágica precisa ser atualizada às necessidades materiais contemporâneas. A solução não é uma completa negação das influências estrangeiras, e sim uma prática artística de expropriação das tecnologias ocidentais, que as coloque a serviço do resgate da ancestralidade.
Um projeto de emancipação da produção cultural brasileira precisa passar pela desconstrução e, principalmente, pela subversão das influências ocidentais em prol da retomada de dispositivos ancestrais que são capazes de nos fornecer uma autonomia em construção de valores, princípios e subjetividades. Para isso, é necessário inverter as relações de conflito inerentes à prática sincrética, submetendo as tecnologias ocidentais e suas aspirações futurísticas aos interesses de nossa soberania.
O funk brasileiro é um exemplo prático dessa nova linguagem sincrética, uma prova de que podemos nos utilizar das técnicas de produção modernas para dar uma nova vida aos tambores e ritmos ancestrais. Sua característica definidora enquanto gênero é a utilização de técnicas e ferramentas da música eletrônica para criar batidas dentro de sua clave, que encontra suas origens no ritmo congo do agogô, presente nos terreiros das religiões de matriz africana.
A pujança de sua cena, que se mantêm fiel às suas origens como manifestação popular das periferias, só é possível graças a técnicas de apropriação das influências estrangeiras, como a pirataria e o uso de samples. Quase como uma prática de contraespionagem, a tomada de posse dessas ferramentas de produção artística nos permite reconfigurar os elementos ancestrais sobre uma nova linguagem que está conectada com as necessidades do espírito de nosso tempo, cheia de potencial a ser explorada.
Nessa era de música digital, marcada pela abundância de produtores, artistas e DJs independentes, o que de fato democratizou o acesso à produção musical não foi a introdução de ferramentas como DAWs, VSTs e plugins e simuladores, e sim a forma que a cultura popular interagiu com elas, se apoderando e criando redes de informações, reinterpretando e metamorfoseando as imposições culturais.
Nossa ânsia de futuro não pode ser capturada pelos delírios distópicos do vale do silício. Precisamos entender que os conhecimentos ancestrais não são coisa do passado, eles estão presentes no DNA de nossa cultura popular e nos apontam para um horizonte, uma ideia de futuro pautada num realinhamento ontológico com a Terra, que é a única solução possível para a catástrofe causada pelo capitalismo colonialista.
A arte é uma das formas mais efetivas de desafiar visões, dialogar com sensibilidades íntimas e construir novas perspectivas e visões sobre o mundo, é um fator determinante para desenvolver uma soberania na produção de subjetividades. O futuro é ancestral e ele precisa ser articulado, também, como um projeto estético. Precisamos colocar o nosso coração no ritmo da Terra.
Nota: esse ensaio foi escrito como acompanhamento de “No Ritmo da Terra”, meu novo álbum que vou lançar como Antropoceno no dia 16 de março. Mais informações no Bandcamp: https://sonhostomamconta.bandcamp.com/


Maravilloso arte.
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Um dia que teremos uma elite que não odeie tudo que é minimamente brasileiro e não se subjulgue a toda estética gringa imperialista? kk rs lindo texto